“Travessia” 

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já? tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. E! O tempo de travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre à margem de nós mesmos.” 

Esse poema sintetiza bem a mudança que decidi fazer no meu modo de pensar sobre a vida e sobre o modo de praticar a medicina. 

Você? já? teve a sensação que a vida entrou no “modo automático”?
O “modo automático” é tentador.
É um programa para se executar a mesma coisa todos os dias de forma igual. Requer pouco consumo de energia e é relativamente eficiente.
Mas no “modo automático” nossa criatividade está desligada e nossa capacidade de lidar com coisas fora do “script” também. A gente fica meio amortecido, anestesiado, apático. Começa a aceitar as coisas sem questionar, perde a individualidade, despersonifica. 

Comecei a perceber que estava entrando no “modo automático” quando ia trabalhar.
15 minutos. Próximo. 20 minutos. Próximo. 30 pessoas. Próximo dia. Próxima semana. 

A medicina é uma profissão maravilhosa que engloba muitas expertises: habilidade manual refinada, tomada de decisões rápidas, capacidade de armazenamento de imagens e informações, capacidade investigativa, raciocínio lógico avaliação de custo x benefício… Todas elas treináveis e que eu julgava estar desempenhando relativamente bem. 

Mas e a capacidade de cuidar? Cuidar do outro e cuidar de mim? 

Quando o médico trabalha com sobrecarga, ele não está só? deixando de cuidar direito do outro: ele está deixando de cuidar bem de si mesmo!